quinta-feira, 4 de outubro de 2007

Não me venham com chorumelas

A minha adolescência foi traumática. Eu não era feliz, eu sofria muito. Tinha épocas em que passava dias trancada no quarto, ouvindo Elis Regina e Bob Marley, deitada na rede, chorando por todas as injustiças que o mundo e meus pais faziam comigo.
Eu era gorda, mas não porque eu comia demais, e sim porque minha mãe tinha me obrigado a parar de dançar. Eu era cheia de espinhas, mas não porque eu não cuidava da minha pele, e sim por causa dos genes ruins do meu pai. O amor da minha vida não me queria, mas não porque eu não me fazia interessante, e sim porque ele era um trouxa. Eu tinha o cabelo feio, mas não porque eu era desleixada com ele, e sim porque ninguém fazia nada pra que ele melhorasse. Nem eu. E assim eu era: a injustiçada. Ó céus, ó vida.
Até que uma noite, já mais adultinha, eu fui numa festa, tomei um porre e cheguei em casa carregada. Minha mãe se apavorou e me disse que eu estava ficando alcoólatra (era a primeira vez que eu bebia de verdade... ah, os exageros) e me obrigou a fazer psicoterapia. Então, lá ia eu toda quinta-feira, de má vontade, contar da minha vida e dos meus sentimentos a um estranho. Eu falava, reclamava da vida, chorava, reclamava da vida, blasfemava, reclamava da vida, e ele só dizia "uhum, hmmm, uhum".
Eu achava aquilo tudo um saco, ficava imaginando o dia que o cara ia soltar uma gargalhada na minha cara dizendo: "sua ridícula, as tuas histórias só me fazem rir". Mas não foi o que ele fez. Depois de algumas sessões, ele fez uma única pergunta que mudou a minha vida: "E o que tu fez pra mudar essa situação?". E eu pensei: nada.
Foi naquele momento que caiu a ficha. Com uma única pergunta, ele me ensinou que, na vida, a gente sempre tem duas opções: facilitar ou dificultar as coisas. E eu comecei a perceber que as pessoas em geral gostam do difícil, do penoso, do sofrido. É mais fácil atribuir a culpa pelas nossas agruras aos outros, à vida. Afinal, na nossa sociedade católica é tão nobre ser digno de compaixão.
Mas eu resolvi seguir o conselho velado do meu psicólogo e escolhi fazer tudo mais fácil. E uma das decisões foi me dar alta da terapia.

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